Marineide Marinho Maciel COSTA
Universidade Federal da Bahia
Resumo
O objetivo principal dessa pesquisa foi o de verificar a diferença em termos aquisicionais entre crianças musicalizadas e não musicalizadas em relação às habilidades de consciência fonológica e seu desempenho em tarefas subjacentes à aprendizagem da leitura e da escrita. Foram aplicados testes em 4 grupos de crianças musicalizadas e não musicalizadas de escolas públicas e de escolas particulares, em várias escolas de Salvador. Os resultados mostram que as crianças musicalizadas têm desempenho superior em todas as tarefas.
Palavras Chave: Musicalização, Consciência Fonológica, Aprendizagem.
Como educadora musical na educação infantil desde a década de setenta em Salvador, tive a oportunidade de musicalizar centenas de crianças das escolas tanto da rede privada quanto da rede pública.
Mulsicalizar, consiste em proporcionar ao indivíduo, seja qual for a sua idade cronológica: - Apreciação, harmonia e equilíbrio para a sincronia entre tempo e espaço, forma e conteúdo.
- Criatividade, respeitando a espontaneidade e individualidade de cada um.
- Execução, fazer música, vivenciando cada um dos elementos de forma consciente.
Nessa caminhada fui acompanhando as crianças e conseqüentemente o seu desenvolvimento, já no ensino fundamental, em várias áreas do conhecimento, quando observei que as crianças que tiveram essa experiência, ou seja, foram musicalizadas na primeira infância, demonstravam habilidades de consciência fonológica e melhor desempenho em tarefas subjacentes à aprendizagem da leitura e da escrita.
Entende-se consciência fonológica com sendo a compreensão de como as palavras são compostas de diversos sons, ou seja: “A consciência com que as crianças refletem sobre as unidades fonológicas-rimas, sílabas e fonemas” (Carvalho, 2002 p.41).
Pesquisas já apontam a importância da consciência fonológica. Como diz Adams, (2006 p.20) “As avaliações do nível de consciência fonológica de crianças em idade pré-escolar predizem em muito seu futuro sucesso na aprendizagem da leitura”.
Esta habilidade, aparentemente básica e transparente para os que já sabem ler e escrever, não surge facilmente, muito menos naturalmente no ser humano, mas considera-se um processo contínuo de conscientização.
Refletindo sobre o conceito de consciência fonológica, levando em consideração que as palavras são compostas de diversos sons, comecei a observar com mais cuidado o desempenho das crianças que tinham sido musicalizadas e percebi que a música tem um papel facilitador nesse processo. E, para comprovar a hipótese era necessário elaborar uma pesquisa de campo, e assim o fiz.
Foi elaborado um Teste de Sondagem de Consciência Fonológica TSCF para verificar a diferença em termos aquisicionais entre crianças musicalizadas e não musicalizadas na primeira infância.
O TSCF constou de quatro questões sobre segmentação silábica e acentuação tônica, cujo padrão prosódico das palavras variava entre: monossílabo, dissílabo, trissílabo e polissílabo proparoxítono, paroxítono e oxítono, e foi aplicado em 40 (quarenta) crianças de várias Escolas em Salvador que cursavam entre 2ª e 3ª séries, em 1990.
As crianças foram selecionadas em quatro grupos aos quais denominei:
Grupo 1 - 10 (dez) crianças de Escola Publica não musicalizadas
Grupo 2 - 10 (dez) crianças de Escola Pública musicalizadas
Grupo 3 - 10 (dez) crianças de Escola Particular não musicalizadas
Grupo 4 - 10 (dez) crianças de Escola Particular musicalizadas
A primeira questão constava de dez palavras as quais as crianças deveriam separar as sílabas.
1- Siga o exemplo:
Marcelo Marina bola boneca café
mesa ela elefante televisão pé
A segunda questão tratava da acentuação tônica, ou seja: as crianças deveriam reconhecer a sílaba forte das palavras.
>
Mar ga ri da vo vó ca dei ra ca mi nhão ma la
A terceira questão consistia em encontrar palavras que combinassem com um padrão rítmico escrito.
A quarta questão: foram escritas 25 palavras para que as crianças organizassem em grupos considerando o rítmo (padrão prosódico) que, no caso, combina características da extensão lexical e do padrão silábico.
Rosa - Antonio – mão - elefante – papel – maçã – costureira - Marcelo – dá – bola – cadeira – sei – vovô – mala – casamento – Maria – Márcia – bicicleta – pé – tinteiro -
Marli – Beto – sapateiro – botar – pai - Marina - casa - Margarida - cajá - sol
O resultado pode ser visto através dos gráficos a seguir:
Os grupos 1 e 3, formados por crianças não musicalizadas tanto da rede pública quanto privada, demonstraram desempenhos bem próximos:
- na 1ª questão (segmentação silábica) ambos conseguiram 90%
- na 2ª questão (acentuação tônica), ou seja, ritmo das palavras ambos conseguiram 45%
- na 3ª questão (ainda acentuação tônica), as crianças da rede pública demonstraram mais dificuldade que as da rede privada, obtendo 0% rede pública enquanto a privada conseguiu 40%.
Nesse caso, observa-se que as crianças ainda têm um vocabulário relativamente pequeno para o nível de escolaridade, que em sua maioria era de 3ª série.
- Na 4ª questão ( selecionar e agrupar as palavras de acordo com o ritmo, ou seja, acentuação tônica) observa-se que as crianças da escola pública ainda estão 0% em relação a esta tarefa de consciência fonológica e as da rede privada estão começando a construção dessa consciência apesar de nem alcançarem 50%
Quanto aos grupos 2 e 4, os das crianças musicalizadas, os resultados foram:
- 1ª questão – (grupo 2 rede pública) 9 crianças conseguiram 100% e uma criança 90%
(grupo 4 rede privada) as 10 crianças alcançaram 100%
- 2ª questão – Grupo 2 - 7 crianças alcançaram 100% e 3 crianças 90%
Grupo 4 – 9 crianças 100% e 1 (uma) criança 90%
- 3ª questão - Grupo 2 - 9 crianças 100% e 8 crianças 90% e 1 (uma)
criança 50%.
Grupo 4 – as 10 crianças 100%
- 4ª questão - Grupo 2 – 1 (uma) criança 100% , 8 crianças 90% e
1 (uma) criança 50%
Grupo 4 - 10 crianças 100%
Nota-se claramente a diferença entre os grupos de crianças musicalizadas e não musicalizadas como resultado dessa investigação, comprovando a hipótese levantada de que a musicalização facilita o processo de aquisição da consciência fonológica
Considerações finais
Durante a análise da pesquisa realizada, pode-se observar a diferença entre as crianças de escolas públicas e da rede privada, que, mesmo as que foram musicalizadas obtiveram menor resultado que as da rede privada e este resultado leva a outras questões concernentes ao processo de aprendizagem da leitura e da escrita dessas crianças.
Quando se diz que uma criança tem consciência fonológica, qual a realidade? Ela tem conhecimento de que as palavras são formadas de diferentes sons, ou ela simplesmente percebe através da percepção auditiva esta diferença?
Os professores do ensino fundamental têm conhecimento das competências e habilidades necessárias para que uma criança tenha sucesso na aprendizagem da leitura e da escrita? Têm consciência fonológica?
A percepção auditiva, uma das percepções desenvolvidas no processo de musicalização, não vem a ser pré-requisito para consciência fonológica, assim como a consciência fonológica não é o único pré-requisito para a aprendizagem da leitura e muito menos consequência da habilidade da leitura, mas sim facilitadores um do outro, ou seja, a musicalização facilita a consciência fonológica e a consciência fonológica facilita a aprendizagem da leitura e da escrita.
Considerando que a língua portuguesa falada no Brasil é uma língua de ritmo acentual e por isso rica em ritmo, som, entonação, elementos também encontrados na música, pode-se afirmar, face ao que foi visto, que na primeira infância, ou seja, de 0 (zero) a 6 (seis) anos a criança deve começar a participar de atividades musicais tanto nas classes de educação infantil, creches, quanto nas escolas de Música.
É preciso, no entanto, que os professores estejam bem informados das necessidades das crianças nessa faixa etária, tenham consciência fonológica e sejam bem preparados musicalmente.
Referências Bibliográficas
Adams, Marilyn Jager ET. Al. (2006) Consciência Fonológica em crianças
Pequenas. Artmed, São Paulo.
Bryant, Peter & Bradley, Lynette. (1987) Problemas de leitura na criança. Artes Médicas
Cagliari, Luis Carlos. (1990) Elementos para um estudo do ritmo da fala. Livre docência.
________________________ Alfabetização e Lingüística. Editora Scipione
Carvalho, Wilson Júnior de Araújo. O desenvolvimento da Consciência Fonológica: da sensibilidade à consciência plena das unidades fonológicas.
Costa,Marineide.(maio 1991). Traços Suprasegmentais, Consciência Fonológica e a Música. Monografia.Trabalho apresentado no final do curso Alfabetização e Aquisição da Língua Materna.Universidade Federal da Bahia, Salvador Brasil.
_______________ (1983) A importância de Uma Experiência em Música e Movimento na Aquisição da Linguagem. Monografia. Trabalho apresentado no final do curso em Psicolingüística. Universidade Federal da Bahia, Salvador, Brasil.
Deese, James. (1976). Psicolingüística. Petrópolis: Vozes
Greene, Judith (1980) Psicolingüística: Chomsky e a Psicologia. Rio de Janeiro: Zahar Editores.
Lamprech, Regina Ritter (org).(2004). Aquisição fonológica do Português. Porto Alegre: Artmed
Swanwick, Keith (2003) Ensinando Música Musicalmente; Tradução de Alda Oliveira e Cristina Tourinho S. Paulo Moderna
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